Quarto de empregada expõe mazelas da profissão

Trabalhar mais de oito horas por dia e ainda ter que dormir em um quarto apertado, quente, ao lado de eletrodomésticos, materiais de limpeza e até sucatas. Para as pessoas que respeitam a profissão de empregada doméstica, a descrição acima parece exagero. Mas esta é a realidade de muitas brasileiras que trabalham em casas de família.

Esta quarta-feira, 27 de abril, é o Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas. Infelizmente, a maioria dessas profissionais não tem muito o que comemorar. Além de não ter os mesmos direitos trabalhistas das demais
categorias, a trabalhadora doméstica é vítima de preconceito e obrigada a aceitar exigências que vão além das suas atividades de trabalho.

A presidente do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas da Área Metropolitana do Recife, Luiza Batista, não concorda com as patroas que exigem que suas funcionárias durmam no local de trabalho. “Pessoas que exercem outras profissões não são obrigadas a dormir no trabalho. E se aceitam dormir, recebem adicional noturno e hora extra. Não temos esse direito regulamentado. Porém, se for um acordo entre a patroa e a empregada, que pelos menos seja oferecida uma estrutura adequada para a profissional dormir”, explicou.

Luiza Batista também ressaltou que, ao dormir na residência da patroa, a trabalhadora perde a liberdade e passa a viver em um regime de semi-escravidão. “A funcionária trabalha muito mais do que 44 horas por semana. Muitas vezes, após terminar suas tarefas, já tarde da noite, são chamadas pelos patrões para fazer um lanche ou até buscar um copo d’água. Isso é abuso”, desabafa.

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A empregada doméstica aposentada Eunice do Monte, de 68 anos, começou a trabalhar ainda criança, com 12 anos de idade. “Subia em um banco para alcançar a pia e assim poder lavar os pratos. Durante anos, passei por várias casas. Já dormi em quarto lotado de sucatas, além de botijão de gás, máquina de lavar e tábua de passar. Também já trabalhei em uma casa que não tinha sala e eu precisava acordar de madrugada para não esbarrar com ninguém no corredor. A minha patroa não gostava de ver a empregada dormindo”, contou Eunice.

Outra empregada doméstica, de 51 anos, que preferiu não se identificar, ainda está na ativa e trabalha há quatro anos em um apartamento de classe média alta, localizado no bairro da Jaqueira, no Recife. A residência tem mais de 270 metros quadrados e quatro suítes, além da dependência de empregada. “Se não fosse pelo tamanho e pelo calor, o meu quarto seria confortável. O espaço tem cama, armário e uma televisão, mas é muito quente porque não possui janela. O ventilador não dá conta e todas as noites vou dormir no corredor da área de serviço”, conta a profissional.

Para a doutora em Antropologia e professora de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Liana Lewis, a falta de respeito do brasileiro é agravada pelo preconceito racial e de gênero. “Quando debatemos sobre trabalhadora doméstica, estamos falando, em sua ampla maioria, de mulheres negras. E o trabalho doméstico apresenta-se como uma clara continuidade do trabalho da mulher negra como escrava no espaço da casa grande, ou seja, ela permanece executando, mesmo que de uma forma redimensionada, um trabalho característico da relação escravocrata: assegurando, de forma irrestrita, um confortável cotidiano doméstico dos seus superiores”, disse.

A professora Liana Lewis acha que, mesmo com a legalização da profissão em 1972, não houve avanços na relação patroa x trabalhadora doméstica. “As ‘etiquetas do cotidiano’ segregam as trabalhadoras domésticas, como a restrição do acesso a determinados alimentos na casa, distinção de horários e espaços das refeições em relação aos empregadores, reserva do pior cômodo da casa: isolado, pequeníssimo, com pouca circulação de ar. A trabalhadora doméstica também é usualmente tratada de forma ríspida pelo patronato, não sendo também incomum sofrer assédio sexual dos homens da casa, patrão e filhos”, finalizou.

*A reportagem entrou em contato com várias trabalhadoras domésticas para saber se era possível mostrar, por meio de fotos, o quarto das casas onde trabalham. Infelizmente, elas não receberam autorização das patroas para fotografar o quarto, mesmo sob a condição de que teriam a identidade preservada.

Fonte: Portal ne10

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